>Santa Cruz do Bispo

>

Começo como Almeida Garrett as “Viagens da Minha Terra”; da janela do meu quarto avisto uma nesga de Atlântico, com as silhuetas graciosas dos cargueiros que esperam pela vida, fundeados ao largo do Porto de Leixões; as silhuetas sólidas das chamadas Torres de Leça; no céu, a pouquíssimos metros de altura, o frenesim de aviões que partem e chegam ao Aeroporto de Francisco Sá Carneiro; e em frente, indiferente a todo o frenesim da vida moderna, o povo amanha pacatamente uma pequena courela.
Eis Santa Cruz do Bispo, concelho de Matosinhos, ali à entrada do Porto, mas escondida e discreta como se não quisesse que dessem por ela.

Apanho o metro, que ao contrário de Lisboa é aqui uma forma de conhecermos a superfície do Grande Porto até à chegada à cidade, e tem a vantagem de ter títulos de transporte que podem ser emprestados a amigos e familiares e servem para toda a rede de autocarros, de metro e de comboio! Tão simples, não é?

imagem daqui

Saindo em S. Bento temos acesso fácil a vários pontos curioso da baixa portuense. Nos Aliados há sempre alguns vestígios das celebrações futebolísticas. Um pouco mais acima, há os Clérigos e a sua Torre, “Porto espremido para cima”, no dizer de Teixeira de Pascoaes, e os seus 240 degraus. Um excelente exercício recompensando por uma vista magnífica.

imagem do FB

Voltamos novamente ao metro, e saio na estação de Francos. O meu destino é a Badalhoca dos presuntos, ali entre a Boavista e Ramalde, célebre por acolher visitantes de todas as origens e classes sociais que ali se sentam tranquilamente a petiscar, e também pela decoração sincera, com o produto e a respectiva qualidade expostos aos olhos de todos. A isto se chama transparência, qualidade que nem todos os restaurantes cultivam hoje em dia.

À tarde, deixámos o metro e pegámos no carro. Preguiçámos pelas esplanadas da marginal de Leça, e depois pela de Matosinhos.

Andámos pela Foz, que ainda mantém um pouco do charme burguês novecentista de quando se tornou o bairro da classe média e das boas famílias.

E ali tão perto, a Cantareira do Chico Fininho e dos pescadores e da gente simples.

À noite, apeteceu-nos, naturalmente, uma francesinha. Tínhamos a indicação do Ricardo e não nos desiludimos. O espanto é quando olham para nós, vindos do sul, e nos sugerem “meia francesinha”, como se tivéssemos barriga para uma inteira… e a verdade é que aos 80%, a francesinha começa a parecer-nos grande! A diferença está aqui na qualidade dos ingredientes e no molho, cuja receita é naturalmente exclusivo da casa.

No dia seguinte, andámos por Ermesinde. Cidade há 20 anos, uma das maiores do país, é difícil deixar de a considerar como um subúrbio, semelhante a tantos outros. E no entanto, não conseguimos deixar de pensar que mantém os hábitos das comunidades pequenas.
Um desses exemplos é o mercado, por onde cirandámos. A fruta e o vestuário são de boa qualidade; a quem vem do sul, ou dos “mouros” como eles dizem por aqui, é aproveitar!

Igreja Paroquial de Santa Cruz do Bispo (daqui)

À noite, fomos ao café central de Santa Cruz do Bispo. Vamos a pé e com tanto silêncio que ninguém diria estarmos a poucas centenas de metros dos maiores shoppings do país, da refinaria, e do porto de Leixões um pouco mais abaixo – não fosse o vaivém constante dos aviões de grande porte que os locais já nem ouvem. Sentamo-nos confortavelmente na esplanada. As pessoas espantam-se de ver por aqui mouros. Dizem que falamos a cantar. Dizem que não temos barriga para comer a sério, e que ali em cima é que é. Dizem que abusamos dos coentros na comida. O Miguel Esteves Cardoso dizia: “No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.” (revista Kapa, nº 2, Novembro de 1990) E tem razão, pois para eles melhor mesmo é o arroz de sarrabulho de Ponte de Lima.

Dizem que mini não é cerveja. E dizem que somos de Lisboa, mesmo quando não somos e quando reiteramos que também achamos que o desenvolvimento de Lisboa tem vindo a centralizar excessivamente o país.
E no entanto ficamos sempre com vontade de cá voltar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: